quinta-feira, 1 de agosto de 2013

nham...!

Desde os dois anos Lalá
fala bem, em sopraninho.

Abre a geladeira e investiga
bem de perto as prateleiras,
e na pontinha dos pés,
busca ver fora do alcance,
falando assim a ninguém:

“deixa eu ver o que vou comer”

A mãe recheou cebola
com um pesto de abóbora,
ralou queijo e empanou
e dourou no forno quente.

A menina estourou uma
com dentinhos de morder
trufa de chocolate, bombom,
e suspirou um sorriso
assim, todo empastadinho:

“cebola é doce, mamãe”.

Lalá é real e densa.
É finusca mas é densa.
A gente a coloca no colo
esperando peso pena
mas pensa que é de mármore.

Sobe com os dois pés
no Louboutin esquerdo da mãe
_ no que ainda não lhe serve
Lalá quer somente brincar.

É sempre de boca cheia
que me recebe à porta,
e lhe perdoo total
o sorriso de mastigação.

É que esqueletinhos da África,
de olho afundado e mortiço,
tenho encravados na retina.

Enquanto rechonchudinhos
mastigam papel na praça
de alimentação do Shopping,
Lalá devora feijão
arroz e todas as cores
que estão postas na mesa

e fast food também.

E me lembro também fui
um desses esqueletinhos,
e devorava a dentadas
a banana inteirinha
e depois comia a casca.


terça-feira, 2 de julho de 2013


As migalhas do lanche da tarde estavam no chão da sala. Para o jantar o casal ia preparar sashimi.
O rapaz mandou a namorada ir chamar a filha do caseiro; disse:
_ Pago cinquenta reais pra ela dar uma ajudinha na folga da mãe. Já deve ter uns nove anos de idade, mas nunca está por aqui quando a gente precisa.
Na frente da edícula a moça encontrou um cachorro e um menino brincando de desmontar um carrinho, perguntou pela menina.
O menino apontou para dentro, onde ela mexia na estante.
A noiva do senhorio então entrou e disse:
_ Oi, a sala da casa grande precisa de uma varrida e a gente queria uma mãozinha na pia.
_ Eu... hã... _ a menina começou, gaguejando _ sabe o que é, tomei banho e... Se não tivesse lavado o cabelo, mas... não queria suar de novo. É que... sabe, hoje na Escola Dominical foi sobre o Salmo vinte e três, hã... A gente ter preocupação demais... Olha, vou ler pra você, quer ver? _ pegou a Bíblia na estante e folheava procurando.
A moça fez com a cara uma coisa não sei se sorriso, adiantando:
_ Eu conheço: O Senhor é o meu Pastor, e nada me faltará.
Aí a mãe da menina interferiu com embaraço:
_ Nat, que é isso, dar lição de moral na moça, imagine.
A moça então sorriu de verdade, dando um passo até à menina, parou e chamou-a a dar um passo também, então lhe deu um abraço e com um beijo no alto da cabeça, falou:
_ O cabelo ficou com um cheiro bom. Tá certo, vá brincar, ou sei lá, fazer suas coisas. É cedo pra isso tudo. Você só tem de estudar.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Safira gigante


Tenho esse anel em mim sem tê-lo algum dia comprado. Não sei como o compraria. Ou por quê. Como o usaria sem ser assaltada, em que cofre guardaria sem ser roubada. Mas aqui está nem sei desde quando. É autêntico, logicamente, e com tudo combina. É igual a outras coisas em mim, tantas. Como a Susi. Essa me lembro quando veio. Aldeia de pescadores em Maceió, na infância. Essa peguei no colo. Posse das quatro meninas de cabelo cor de colorau que moravam no bairro chic da cidade; suas cabeleiras especialíssimas em lugar tão tropical, onde quase tudo que respirasse se cobria de marrom, enriqueciam minha imaginação. Vez ou outra passava um dia com elas.
Seja hoje uma de nós. Tome aqui a boneca Susi, de cabelo cor de estrela, girando graciosa em torno de seu próprio corpo delgado, as pernas de garça equilibradas sobre saltos altíssimos. Venha ao chuveiro conosco, temos sabonete e _ maravilha! _ shampoo, perfume que enternece.
Estava num castelo de cristal, elas madrinhas de Cinderela.
Susi me olhando com ar de superioridade.