sábado, 14 de julho de 2012

O tempo na Terra




       Queria ter-lhe perguntado o nome, no começo do papo ou na despedida, para lhe dar identidade. Se intuísse que ia se demorar aqui, tornando-se uma crônica. Com base em sua figura, deve ser Maria de alguma coisa, assim ditaria o convencional.
      Acontece que é um convencional antigo, agora caducado. Ultimamente, nos andaços do padrão estético, ela está merecendo nota. Posso me lembrar de alcunhas diversas ouvidas até um tempo atrás sobre alguma velhinha afro e descarnada assim, já hoje em dia temos tipos como a editora meio francesa meio senegalesa da revista Wonderland a alterar a velha ordem _ vislumbro mesmo uma idosa Julia Sarr-Jamois a trocar casualidades comigo nesse sol frio de julho, enquanto o ônibus costura no meio do trânsito. A mesma elegância feita de espaço livre, de vãos entre a pele e os panos que balançam moles aos seus movimentos, cruzadas completas de pernas e braços, sem volumes a impedir. A cabeleira curta de aspecto fofo tem mescla parca.  A postura é não só consciente de si, não só segura de si, é contente de si. Tanto que a meio da nossa interação acabei por imaginar: na juventude deve ter sido uma garota de programa, tal sua auto consciência.
Quando tomou o assento ao meu lado, começou reclamando: Que frio! Não dá pra ficar dentro de casa. Estou até resfriada, vê? Está um gelo, não está? Só se, por velhice, sinto frio fora do comum.
Confortei-a reclamando igualmente, mostrando meu excesso de lã. E ela reafirmou: Mas que sou velha demais, sou. Quantos anos você acha que eu tenho?
Ah, eu não saberia dizer...
Chuta!
Ah, a gente nunca acerta a idade dos outros assim.
Mas chuta, vai! Você não vai acertar mesmo. Ninguém acerta nunca. Mas chuta aí!
Não sei, sabe, não acho legal, é meio... É difícil porque, sabe, a gente erra feio, e...
Chuta aí, e pode chutar alto, que é muito tempo. Chuta!
Hã... _ restou-me a rendição: _ Setenta e poucos... _ uma certa interrogação.
Ih, qual! Tenho noventa e três anos _ o olhar incrivelmente aberto a procurar por espanto em mim e encontrando inveja. Por causa do meu projeto inviável de não apenas ficar tão velha, mas também magra e de cara lisa assim. Inviável, meu DNA é mestiçado, mas a despeito do black power absurdo, a melanina é insuficiente para proteção. O peso então. Tenho a idade na fachada.
Vá viver tanto assim lá longe, né? _ ela brincou, e desandou a comentar sua vida. Nunca casou nem teve filho _ Mas tenho casa própria _ assegurou. Mora sozinha; poderia morar com a irmã viúva, mas esta é mandona _ Eu não vou deixar que alguém decida o que posso ou não posso fazer dos meus dias! Quem mandava em mim já morreu _ e mostrou logo ali adiante os escombros da antiga fábrica de tecido, onde aos doze anos de idade começou a trabalhar, e adorava o que fazia. Mencionou a lembrança muito amada da mãe; os irmãos, dos quais remanescem dois, nove enterrados nos Ipês, aonde a propósito está indo, visitá-los, nalgumas tardes da semana é o que faz para matar o tempo _ e com um trejeito nas feições, ironia: _ Como se restasse do tempo uma abundância! _. Entrou no primeiro emprego muito cedo, para ajudar os pais, afinal eram doze bocas para alimentar. O pão se fazia em casa, não vencia comprar na padaria. Isso já aqui, mas desde Lorena já era assim. Não é daqui. _ Conhece Lorena? Perto de Guaratinguetá, Piquete... O interior é muito bom, não? Quanto mais fundo no Brasil, melhor _ Há muito não vai lá; qualquer dia desses, quem sabe..., uma cunhada viúva ainda mora lá. Mas, enfim, veio criança para cá. _ Dez anos de idade. É tempo, hem? Você imagina quantos anos tenho agora?
Disfarcei o breve espanto, procurando o que dizer. E ela:
Chuta!


Nenhum comentário:

Postar um comentário