sexta-feira, 20 de julho de 2012

Orgulho e Vaidade

“Vou cortar o cabelo”, Mabu pensou, vendo a B. zanzar entre os comensais, de cabeleira crespa e curta a refletir a luz alaranjada dessa manhã de junho. “Ela não tem idade, e não precisa de simetria nem magreza. Sabe usar de naturalidade como ninguém, cultivar a liberdade, priva de criatividade fora de série _ sua arte é muito visitada nos seus álbuns virtuais. E tem um marido bom de beijar. Nem mesmo vê o perigo de um marido bonito; a B. é completa em si mesma”.
Mabu é escrava do alisante, aliás artificialidade imperativa em tudo, uma filharada, um marido tolo e esse cansaço injustificado.
Não nesse dia, pois a festa se estendeu até depois do poente, mas na tarde seguinte, tão logo se liberou do que chama “a primeira etapa do trabalho escravo diário”, correu a esconder-se no seu cabeleireiro, de lá saindo tosada. Passava a mão na nuca, estranhando o vazio. Não voltaram os caracóis de nascença, devido aos alisamentos consecutivos, mas um arrepiado, um punk que para ser aceito careceria da liberdade tão ensaiada e jamais concretizada. A irritação que todo mundo sempre lhe provocou é um timer da sua condição de prisioneira, não podem olhá-la de esguelha, que já levam um desaforo nas fuças, e depois ela tem de arcar com a mortificação resultante de sua falta de compostura. Enquanto a B. parece não enxergar em redor expressão ou sugestão crítica. “O mundo dela ninguém invade!”, falou consigo e sempre consigo, contendo um estremecimento raivoso, a vislumbrar o mundo almejado, a redoma onde a B. exibe suas qualidades e alegria de viver, por nada atingida, nenhum acidente de percurso; parece comprar pouco em realizações e o troco em satisfação é imenso.
Mabu não vê mesmo o que mostrar, detesta qualquer reality show, não pretende viver um, fotos pessoais na Internet, cotidiano revelado minuto a minuto, jamais. Queria mostrar arte; é o que a B. faz, obras de um lúdico delicadamente revelador, acima de qualquer suspeita. Mabu como até sabe fazer alguma coisa, abriu uma página de face book, e postou absolutamente nada, sequer uma foto de qualquer coisa sua no perfil. Enquanto a foto no perfil de B. é de uma peça que puxa o navegante da rede para a página, onde a enorme coleção de outras peças o mantém de olhos pregados na tela até que o mouse lhe seja arrancado da mão.
A coleção que Mabu fez é de meninas, uma diversidade de idades, exigentes como elas só, foram pontuais em alertar sobre seu súbito ganho de peso, e agora: “Mãe!, o que ‘cê fez com o cabelo...?!”
Apoio unicamente daquele lá: “Achei legal, amor, seu pescoço assim descoberto. É a minha moleca”. O tolo, a alegria de sempre por todos os poros.



“Se ela não vier, melhor”, B. avaliou, um segundo antes de avistar Mabu. E caiu numa disposição bem diversa da possível na ausência da outra. Teria sido serenidade. A serenidade de girar no próprio eixo, no automático. Mas agora... B. desgosta dessa espécie de febre da primavera que ora a toma. Que todas as vezes a toma, pondo-lhe anseios irrealizáveis. Então seria mais feliz com nádegas retas? _ dentre tantas belezas da terra-mãe, tinha de herdar a bunda!, que repuxa os panos, deformando a modelagem mais impecável. Em Mabu a saia lápis faz jus ao nome, sem abaulado extra, e os peitos não ficam a empurrar ferozmente o mundo. Sobre a roupa para ir a um casamento, dispensa a dúvida: saco de batata ou vestido evasê de seda? Quem notará a diferença? Ao que parece a vida ia transcorrer em perfeita ordem caso tivesse o DNA dessa que diria “mestiçagem pura” _ mãe negra pura com pai branco puro, resultando no nariz perfeito a centralizar o rosto de harmonia impossível. Os dentistas sempre afirmam que as de Mabu são as arcadas dentárias ideais. Na cabeça nada de garranchos, nascem-lhe espirais bem feitas _ B. se lembra dela apelidada Princesa Sissi na infância, devido ao aspecto de antiga boneca de porcelana, mas de língua afiada e expressiva como boneca alguma tem e não convém a princesas. Quando surgiu de mechas alisadas parecendo seda pura, B. quase correu atrás do mesmo resultado, mas contando até três optou por opor-se: o habitual. Não se pode com ela se juntar-se a ela.
Ok, não ser protagonista, o que se há de fazer?, antagonista tem seu valor. Usar da diferença é a solução para não ser sombra. Procura valorizar seu african style e evidenciar seu cotidiano de mordomias, única vantagem advinda de só precisar cuidar de si.
Diante de uma crítica ao temperamento de Mabu, pois é comum tacharem-na de arrogante, trata de reforçar com dissimulação. Mas com empenho. É como uma campanha terrorista, daqueles muçulmanos radicais travestidos de estadunidenses vivendo belamente em condomínios e fabricando bombas no subsolo _ com Mabu por alvo. Outra fantasia é fazer como no filme A Chave Mestra, sobre a lenda de New Orleans, em que a velha toma o invólucro da moça, deixando o espírito novo preso no corpo atrofiado pelo derrame cerebral, ficando o espírito antigo no corpo tenro, forte e bonito.
B. costuma ser caridosa, simbiótica com os fracos. Mas Mabu não é fraca.
Mabu é uma ameaça.

2 comentários:

  1. WoW, your drawing is amazing ;o)
    Tania xx

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    1. Thank you, Tania!

      Only for research: the text is understandable?(translated).

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