terça-feira, 17 de julho de 2012

Meditação (depois do banho)



        

 Os arabescos de Matisse são cabelos ao vento, nos quais me agarro e viajo de volta à infância. Junção dos Sessenta com os Setenta.  Acontecia uma revolução estética que eu só viria a conhecer tarde demais. Por ora havia treliças de madeira separando copas de cozinhas. Numa das residências Calheiros um cheiro maravilhoso de sopa de legumes picados a miúdo com caldo abundante e enriquecida com bonitos ossos de boi. Nunca vou entender criança que não come pedaços de cebola cozida. Eu às vezes estava lá esperando minha irmã terminar o serviço para irmos embora. Não me lembro bem por que ia lá. Decerto para farejar essa sopa vespertina, praxe de todas as melhores residências. Minha irmã adolescente fora instruída no preparo enquanto a patroa ocupava-se a costurar para as clientes abastadas de Maceió _ entre as quais uma menininha chamada Rosane que viria a ser Primeira Dama do Brasil. Eu aguardava assistindo à Pantera Cor de Rosa, que, fato curioso: tinha muita fome e recortava um peixe de uma revista, fritava-o, comia e jogava fora a espinha. Se não me engana demais a memória. Engraçado ela também ter miragem de comida. Muitos anos depois leio Clarice Lispector a mencionar a fome brasileira daqueles dias. O cartoon é de Hollywood, mas a função da televisão sempre foi catar coisas do mundo todo para dar espelho à gente.
Pelas treliças acho que se infiltravam azedinhas, capuchinhas, avencas, samambaias, acácias. Arabescos enfim. Como os arcos da cadeira de balanço do patrão.
E os da poltrona de fios do titio Pedro, aposentado da Petrobrás, cuja casa exalava carne de panela temperada com cominho e pimenta do reino moída na hora. O molho com colorau untava e avermelhava o arroz nos bocados remexidos no prato. Com garfo. Nalguns ensolarados domingos em que mamãe arranjava uma desculpa para subirmos à visita no bairro do Farol. Chuveiro no banheiro e azulejos floreados de um lazuli que se repetia na parede da igreja de Santo Antônio. Na praça, depois da missa vespertina, tudo se azulava pelas lâmpadas fluorescentes dos postes. Os buquês de roletes de cana exibiam tom misteriosamente festivo, espetados numa tábua perfurada, para se venderem a centavos escassos.
Havia um piano, vez em quando? Devia haver, alguém tomava lições. Ou é projeção minha, só porque Alba Cristina era todos os dias levada ao colégio particular pela babá, que noutras horas bordava sentada atrás do balaústre. Faltava-me assunto com a prima, qualquer tema em comum para desenvolver brincadeira. De segundo grau, porém. O pai, Nelson, é que era primo de mamãe. Funcionário público de algum status, a julgar pelo estilo de vida. De quais temas, por sua vez, deviam partir as conversações com a lavadeira analfabeta, não sei. Não me lembro de haver reparado. E o odor evocado pela casa já não é de alguma comida. É só respiração de vida burguesa, tranqüila, aprazível e “normal”.
Embora no quadro de Matisse a sensualidade da escultura nua contraste com a rotina burguesa, mas sem rosto, sem ver, sem ouvir, sem falar, inerte quanto ao tédio, eu sou aquela pequena chama da vela.
Sei lá. Orientalismo, papel de parede ocre com vinho, madeira escura e trepadeiras, cercas vivas, arabescos azuis... até hoje me matam.


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