terça-feira, 17 de julho de 2012

Cor de rio





       Respondendo à curiosidade de Valentina, falei resumidamente desta prainha perto do Picinguaba, que ela afirmou conhecer, desta casa, desta encosta defronte à rua sem saída que margeia a praia, da aventura de anos a estudar gastronomia na França, a residência inevitável em São Paulo. Entramos a trocar pareceres sobre a grande metrópole, o carbono do ar, o enxofre dos rios, o bangue-bangue das ruas. Ela gracejou sobre a depressividade do tema, e voltou a falar do carro enguiçado. Passara por uma revisão antes de ser posto a enfrentar a estrada. Acabavam de comprá-lo de segunda mão, aliás foram à capital para isso. Luci foi quem negociou com o mecânico a revisão, mas parece que foi ludibriada.

       Olhei para Luci, ainda de atenção fixa na paisagem, dispensando a oportunidade de se defender de mais essa. Surda muda talvez, considerei, a despeito da menção da outra ao telefone celular e à negociação com o mecânico: existem a linguagem dos sinais, os sistemas viber call e torpedo.

       Nos silêncios e enquanto dialogava com Valentina (e a bem da verdade mais a ouvia do que falava) vigiei Luci pelo retrovisor. Minha atenção foi se prendendo nisso e não demorou para meus olhos se irem saindo do controle, a se revezarem sem trégua da estrada para aquele rosto de menina grande. A área principal do pensamento _ reservada uma fração modesta para dividir entre a conversa com a passageira ao lado e o equilíbrio do carro no meio das faixas do asfalto _ divagava na curiosidade. Imaginava a forma que o rosto tão cheio e estirado tomará na velhice, terá de murchar incrivelmente, para projetar a estrutura óssea, a boca terá de alargar-se e secar. Inimaginável uma maçã com sua fibra compacta se transformar em um maracujá sem vácuo sequer, sem vãos. Ao se aproximar dos trinta anos um rosto já prenuncia ângulos e, reparando bem, queda de musculatura; mas esse acompanhou o crescimento do corpo sem amadurecer, o que o tornou hiper simétrico, muito de boneca. Literalmente. Evoca sorriso. Sorri e ela nem viu, absorta na paisagem, presa à vista exterior. Ou escapando de se envolver na conversa do interior do carro.

       Súbito fiz uma descoberta: conheço esse rosto. Uma semi descoberta, em verdade, essa Luci é uma completa desconhecida, mas seu rosto produz reverberação em minha memória. Ecoa tão no fundo, antigamente em minha existência, que falta parâmetro para avaliar, quer dizer, toda lembrança minha costuma emergir com etiqueta de idade, munido da qual localizo a época e vasculho os acontecimentos, desvendando de todo a lembrança e tornando a arquivá-la. Sem a etiqueta correspondente, vagando no tempo que nem pipa perdida da linha, ou folha ao vento de outono, essa lembrança se pôs a me perturbar seriamente. A inquietação me foi tomando o sentido por inteiro, os olhos ficando loucos, clique no asfalto, clique no retrovisor, clique no asfalto, clique no retrovisor, clique, clique, clique... Um tique, uma convulsão.

       Não poucas vezes projetei perguntar “Já nos vimos antes, Senhorita Luci?”. Estando a três, não soaria como cantada pobre; fui tolhido não sei pelo quê, como se fosse um tímido.

       E se usasse a conversa com a outra para investigar? Valentina porventura esclareceria em qual ambiente podemos ter estado na mesma ocasião, ela me vendo e eu vendo Luci de passagem, notando-a e a esquecendo na hora, para a ver ressurgir então com essa nitidez. Acontece assim? É possível a memória empalidecer ao ponto do apagamento e reacender-se sem mais nem menos com essa intensidade? “Melhor não mexer nisso por enquanto”, decretou o novo tímido dentro de mim. Mantive as trivialidades com a passageira ao lado, reservando a irrespondível pergunta, que em vez de, a exemplo da memória, empalidecer, ficou ali, complacente, curvada em redor do corpo da conversa, mas em nenhum instante se ausentando; aqui, ali, acolá afastava a voz da minha interlocutora, em lugar da qual fazia soar, batendo no retrovisor: onde a vi antes? O rosto evocando um quê de pueril na memória. Vinte e quantos anos ela tem?... Eu a teria visto menina-moça, uma vez, no passeio do Ibirapuera?, o patim de roda enganchando numa pedra e a derrubando diante do meu banco predileto para a leitura do jornal depois da caminhada, ajudei-a a se levantar e a esqueci, para relembrar então... Especulação. Chinelos de emborrachado cor-de-rosa de plataforma; quando vi?, se lhe estava enxergando o rosto apenas, e nem por inteiro. Notara no acostamento?, em tão rápido e preenchido momento. Indagava de mim mesmo onde havia ido buscar memória fotográfica a tal ponto, enquanto Valentina contava que achara um tempinho para ver Picasso, em dia de pouco movimento. Unhas quadradinhas pintadas de rosa chá, o nome deve ser outro, desconheço cores de esmalte de unha, mas reconheço o tom queimado de rosa em qualquer superfície. Quando foi que vi os pés? De passagem?, empalideceram e estavam de volta, vivos, com tufinhos delicados de pelos em cima de cada dedo. Valentina deixara de lado as mulheres engrandecidas de Picasso, seus quadriculados de arlequim, a riqueza cromática dos retratos de Marie-Thérèse e a monumentalidade sombria de Guernica, e pegara Auguste Rodin; o Pensador era mais que ironia, era sátira da natureza do pensamento humano, sentado naquela postura própria para o vaso sanitário, de mão apoiando o queixo, compenetrado, fazendo força literalmente, “pensando” com a musculatura. A penugem suave subindo pelas pernas, braços; pelos de menina, dispensando a depilação. Short verde água, ou azul piscina?, qualquer tom assim, cavas largas dançando afagantes em trono das pernas delgadas e ao mesmo tempo do tipo músculo-para-que-te-quero. E uma malha preta de alças. Desnecessário olhar para o banco de trás, a me certificar desses detalhes visuais. Mãos de unhas também quadradinhas no mesmo rosa chá, também com tufinhos enfeitando as primeiras falanges. Ou a imaginação desenhou os detalhes. A imaginação costuma preencher as lacunas do conhecimento; foi o que Einstein quis dizer? As autobiografias são inteiradas às custas da imaginação, diz a Psicologia.

       Saltando do carro no posto de serviços fui tomado de satisfação e preocupação, como se fosse possível associar essas duas sensações (mas é claro que pode: crime e castigo). Ao ter a comprovação de que era tudo verdade, chinelo, unhas, pelos, malha, short, músculos delineados com delicadeza. E tanto mais com que minha visão esbaldar-se, que me entreguei encarando-a de frente, enquanto a outra ia se entender com o mecânico.

       Essa Luci me encarou enfim com uns olhos por se inventarem ainda. Claros, e não azuis nem verdes ou castanhos, nem castanho-esverdeados ou castanho-azulados. Transparentes simplesmente. Fantasia minha, óbvio, existe uma cor com a qual defini-los, eu é que decerto os fitei dentro demais, passando direto pela camada cromática sem a decifrar.


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