sexta-feira, 27 de julho de 2012

A poesia do imperfeito



Depois, bom...

A rosa em botão, logo que brota, é toda enrustidinha, envolta pelo calículo. Durante um bom tempo só terá de vegetar a serviço da nutrição para a sobrevivência. Mas a certa altura do tempo as sépalas do calículo se vão separando, despindo a rosa dessa proteção. Chegou o momento de atender o destino; para tanto vai se afrouxando o entrelaçamento das pétalas, estas se espaçando de modo a tornar acessível o tálamo, onde seu gérmen aguarda.
Então aquelas sépalas, apêndices verdes estéreis, reclamam, contrariadas por terem sido exoneradas de seu cargo de protetoras, avessadas para baixo, meio encaracoladas, difamam a rosa para o pedúnculo.
"Agora sim!, estamos inúteis; essa, aí em cima, está dispensando a nossa proteção, agora deu pra arreganhar aquelas pétalas desgrenhadas, exibindo  pistilo, oferecendo estigma a todo ferrão que vai passando; veja lá: toda vermelhona, perfume forte!, minando horrores de néctar, permitindo a qualquer um, qualquer um mesmo, seja inseto, seja passarinho, chafurdar no seu pólen. Até bicho grande mete o focinho. Tem mais segredo pra a gente proteger não, perdeu a vergonha de vez...”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário