quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A POESIA


Devo fugir da Senhora
que me enlouquece.
Caio do muro
no meio da lama.
Intuo sagrado
o que me traz dano.
Dimensão de louco.
Oásis de hospício.
Mas se os olhos fecho
pra só ver matéria
matéria fico.
Sólido morro.
Tédio.
Terra.
Se só vir matéria
subo no muro.
De novo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ESTRÂNGULO


           Anoitece.
        Encontrará em casa o silêncio, o mini lago no jardim, o sapo que vez ou outra aparece. Fica sumido durante dias, semanas, e passa para uma visita ao lago. Já lhe deu sustos; numa iminência de tempestade, ao desconectar as tomadas dos eletrodomésticos, deu de cara com ele sentado sobre a televisão, olhinhos brilhantes fixos.
        Se for para casa, decerto vai se sentar à margem da água, perdendo-se em reminiscências noite adentro. Sua vida atualmente. 

O sapo. O príncipe.
O pêndulo.
O lago. Plácido.
O beijo. Vendaval.
O tempo. Surdo.
Mórbido...

           É do Tuta, o poema. Peso de chumbo na reticência.
        Decide evitar. Vai rodar por ali. Queimar gasolina. Onde é que se pode ir meditar à toa numa noite solitária numa cidade industrial? Avança pelas ruas comerciais. Chega ao shopping center. Comprará a bolsa que viu na loja indiana. Para presentear tia Jane. Não é sua tia de verdade, é mãe do Tuta. Foi quem a trouxe afetuosamente a essa cidade. Aniversaria. No dia do casamento do ex-marido. Boa e sóbria tia Jane. Deu-lhe apoio naquela adolescência, incentivou seu talento profissional. É sua sócia no atelier há anos. E também tentou arrazoar quanto à sua decisão de casar com Zé Carlos. "São muito diferentes, Lia. Dá problema. Vêm os filhos, que ficam sem saber o que é certo, pois os pais não entram num acordo. Olhe para a minha história. Veja o resultado no Tuta".
        Mencionar Tuta a fez decidir mais depressa. Precisava viver. Envolver-se com coisa concreta e só sua.
        No entanto, depois do "vendaval", tudo ficou malparado. Os filhos, achou por bem nem trazer ao mundo. Zé Carlos vivia para o trabalho, só lhe concedendo frestas de tempo. Até numa tarde entrar apressado, e fazer uma mala, informando: "Vou pro Pantanal. De mudança. Você resolve se vai depois, fique pensando no assunto. Tô indo na frente, pra aproveitar a carona no caminhão do Pedrão, que vai buscar uma carga. Passa aqui já, já". 
        Ele subitamente decidira haver chegado a hora de assentar a vida às margens do rio Paraguai, onde os pirilampos iluminam o campo à noite, os grilos fazem uma sinfonia, o peixe se pesca e se come na hora, a gente vizinha é singela e hospitaleira. Ela pensasse no assunto.
        Pensou. Dias, semanas. Considerava a poluição, o barulho, a violência urbana; e resolvia ir. Considerava o mato, os mosquitos, as cobras, a rudeza, o isolamento; e resolvia ficar. Considerava os pés frios de solidão, o travesseiro único; e iria. Considerava a mornidão, a mesmice; e ficaria. 
        Meses. Ano. Anos. Uma balança. Uma gangorra; ela é e não é.
        A essa altura pode já haver uma índia, cabocla, mameluca, cariboca, carijó, uma mestiça de lá preenchendo a vaga na cozinha e na cama dele.