terça-feira, 28 de junho de 2011

DEPUTADO


        Habituaram-se a encontrá-lo por ali. No elevador, nos corredores, receber e dar duas palavrinhas. Ele os vinha ver, com algum agrado nos bolsos para as crianças. Elogiava o bolo de fubá dela e esvaziava o bule de café de Raduan. De ordinário sorria mais no começo da semana, comendo o mundo pelas bordas, trajado de uma esperança, um semi traje que se ia puindo no correr dos "cinco dias mais ou menos úteis" (palavras dele).
  Entre as contrariedades que o punham naquele estado desgastado percebia-se um pasmo, um espanto pelo que o mundo causa a si próprio.
  _ É um haraquiri _ expressou, parado em pé no meio da cozinha, com uma xícara a caminho da boca _ Mas não é sequer por algum tipo de prazer que o mundo se suicida. Vocês sabem, como o sujeito que explode de tanto comer, o que apodrece de beber, ou outro vício. O mundo simplesmente se rasga. Sem explicação. Isso está evidente nas pessoas se matando no trânsito, por negligência, digladiando-se nas arquibancadas de futebol, por intolerância, casais destruindo-se e aos filhos por estresse. A mídia que é feita dos mesmos seres comuns, mastiga isso tudo e cospe sangue para cima, espalhando infecção. E a Política, ah, a Política! Arre!... Vocês me deem mais desse mais desse café, pelo amor de Deus! Sei que creem em Deus, ou não fariam um café assim.
  Era isso, sem a intenção de os politizar, mesmo obter resposta; simples arfar de estafa que se solta ao vento. O casal, nesse seu instante de ser vento, reconhecia por função ouvir e calar. Mesmo porque no instante a seguir ele sobrepunha a essa estafa existencial o bom da vida:
  _ E os meninos? Como foi a semana deles? Ah, aí estão, olá! Pronto, olhem o que trouxe: pirulito... Ah!, sentei em cima... Esfacelou, bolso errado. Desculpem! Serve moeda? Ótimo, tomem. Vejam lá, não ponham na boca. Doce é para pôr na boca, moeda é para comprá-lo. Vou ser mais cuidadoso da próxima vez. Venham cá, com o titio, que precisa de vocês para respirar. O que fizeram de bom? Alguma coisa legal? Um viaduto de massa?! Ah, é? Todo colorido. Sim, mas é lógico que quero ver! Vá buscar, Tito. Michele, deixe-o ir, fique, se brigarem para trazê-lo, vão quebrar. Eu sei que fizeram juntos. É claro, um homem não faz nada sem uma mulher, nunca esqueça isso, a mulher é necessária para tudo. Eu sei que metade do trabalho é obra sua. Mas fique um instante comigo, quero admirá-la. Sabe que é bonita demais? Sabe? Quem lhe disse? Mamãe e papai? Eles sabem das coisas. O quê, Tito?, disse "senhor" pra mim? Escutem, vou pedir uma coisa, que pedi aos seus pais e eles não me atenderam: tratem-me por "você". Ok? Pelo nome. Ou melhor, pelo apelido. Digam! Oh, céus...!, na boca de vocês parece canto de pombos. Hã? Pombos não cantam? Ah, arrulham suaves como a paz. Peguei vocês: dá na mesma, são a paz pra mim. Então está combinado. Estou completando só quarenta anos. Sei que parece a idade do mundo mas, garanto, sou jovem. Sou menino mesmo, como vocês. Aliás, podia ser um terceiro gêmeo seu. Que tal?, me aceitam? Está bem então, espalhem por aí que somos trigêmeos. Mas usem meu apelido quando falarem por aí. Podem até usar o título junto, "deputado", que essas coisas impressionam. Mas junto com o apelido, vejam lá! Ah, sim, vamos à obra-prima. Puxa vida, que trabalho formidável! Querem saber? não irei mais de helicóptero à minha casa em São Paulo, irei de viaduto. Quê? De carro? Foi o que eu disse, ora essa, de carro...
  Ao dar "boa noite", indo recolher-se, falando em banho e desabar na cama, aparentava estar descarregado. Ela anelava que assim fosse. Desejava mesmo lhe emprestar os meninos, um a lhe fazer cafuné, outro a recostar no peito, anestesiando-o no sono, garantindo a energia positiva necessária para o dia a vir.
   Devaneio; tratam-se de filhos, não de travesseiros recheados de sálvia e melissa. A propósito, ofertou-lhe um desses travesseiros de ervas, quando os confeccionou para os de casa.