quarta-feira, 23 de novembro de 2011

TORRENTE



Primeiro engoliu o suco contido no copo. A garganta se apertava ressecada. Desistiram do jantar, foram à saleta. Nem só por causa de medicação rejeitara álcool havia pouco. Tudo o que inebria é inimigo seu. Tem de reconhecer que desconhece a medida do equilíbrio. Deixa o talento da corda bamba para aquelas moças espetaculares do circo. Ela é mediana, esteja de que lado estiver. Considera-se uma Mariazinha medíocre.
_ Um dia me iludi com a idéia de que era especial. E conheci alguém, que também inventou isso de si _ Então levou Hernández a conhecer sua história com Thomas. Las Vegas. Na segunda hora do primeiro encontro estava cometendo atentado ao pudor com o americano, encostados na caça níquel de um cassino. Atirados à rua pelos seguranças, era madrugada, aquele seu amigo muito recente roubou um carro, e foram os dois tirar da cama um daqueles magistrados que realizam os célebres casamentos dali. Casados, registraram-se em um hotel somente para pegar uma manta bem fofa e irem se estender em cima de uma tumba no cemitério, onde consumaram o enlace, em meio ao silêncio e à penumbra natural e algo macabra, exceto pelo uivar de um cão nas proximidades e à espécie de aurora boreal que aquela montoeira de luminosos desenha no horizonte da cidade.
Depois foram a outro cassino, onde Thomas trapaceou no carteado só para pagar ao hotel a manta que esqueceram no cemitério. Umas atitudes assim. Só faziam sentido por estarem sob efeito de cocaína, heroína, álcool.
Um estilo de vida que continuou no Brasil. Até ele começar a traí-la com quase todas as conhecidas. Brigavam, trocando as ofensas mais inacreditáveis e as vinganças mais estúpidas. Quando ela levou a primeira bofetada, afastou-se dele. Descobriu logo em seguida que estava grávida. Hesitou bastante em lhe contar. Mas o fez. E ainda se deixou convencer de que iam viver diferente, com o filho. Comemoraram com um vinho velho e nobilíssimo, adquirido de modo não confesso mas presumível.
E ela voltou para os hotéis da vida, seguindo-o com a barriga crescente.
A segunda agressão física a mandou para o hospital, com hemorragia e quase a abortar João.
Preso, Thomas uivava na cela: “Johnny! Johnny! Perdão, meu pequeno Johnny!”
Ao visitá-lo sentiu pena. Ele chorou muito, beijando-lhe a barriga.
Sabia que ele não mudaria, mas fez o possível para o libertar da prisão.
Seu pai, viúvo pela segunda vez, e já não tendo grande saúde mental, teve derrame, e passou longo tempo internado numa clínica. Ela cuidava do bebê, instalada sozinha na casa onde crescera. Arranjou emprego na fábrica de malhas para a qual ainda presta serviço.
E aos poucos Thomas foi voltando, para ver o filho. Tinha aquela espécie de magia, e ela uma suscetibilidade sem par. Durante os primeiros oito anos de vida João foi submetido a esse puxa-encolhe. E não só ele mas outros três rebentos. Uma prole inteira.
Ele não chegou a agredir fisicamente nenhum dos filhos, mas era impraticável esconder deles a desavença, os hematomas, a constante presença da polícia registrando as ocorrências e, principalmente, as overdoses que a levaram às internações para desintoxicação, e, claro, as recaídas. Causava-lhes no mínimo insegurança, raiz certa de trauma. Causava miséria, medo. Uma porção desses crimes hediondos. De modo que recebeu vários ultimatos das autoridades, ameaça de os perder, por incapacidade de os criar.
Só libertou de uma vez o espírito no dia do segundo aniversário de Gisele, a caçula.
Hernández a ouvia sem interrupção, com seu rosto-espelho, o aspecto de estar vendo exatamente o que ela revia e lhe contava. E somente uma dúvida no final:
_ Como foi que se libertou?
A exata pergunta que ela continua a se fazer. Como acordou finalmente para o fato de que qualquer um que não apóie a sua vida não é digno do seu tempo. Tem a circunstância do acontecido. Circunstância a ser interpretada: na hora da aniversariante soprar a sua velinha de número dois em cima do bolo, João, então com oito anos, pediu para fazer o pedido por ela.
“É muito pequena”, explicou ele, “mas eu sei o que pode ser um grande desejo dela”.
Feito. Mais tarde ouviu Edith, a segunda filha, perguntar ao irmão um ano mais velho: “Pra quem fez o pedido, Johnny? Foi pra Gisele mesmo? Ou pra você?”
“Pra mim”, respondeu ele, “pra Gisele, pra você e pra Lili”.
“O que pediu? Que o nosso pai fique sempre em casa? Porque é muito ruim quando ele tá aqui...”
“Não foi isso. Pedi que a gente só tivesse mãe. Pra Mariazinha nunca mais apanhar nem ficar doente”.
De repente, nossa! Pareceu tão fácil, que era só querer. Ela queria há muito tempo se libertar. E não só por dever, também por medo desse curso de destruição. Se seus filhos podiam acreditar em tal possibilidade, por que ela não? E de fato, nunca mais caiu. Daí em diante passou a reagir com asco a Thomas.
_ Não sei se dá para explicar o fim de um vício. Dá?
_ Acho que não _ Hernández refletia _ É um milagre do espírito humano _ pegou sua mão, rindo-se e apertando-lhe os dedos, ao concluir: _ Você não é uma... Como foi que disse? “Mariazinha medíocre”? Madre de Dios! Você é... ressurgida, sobrevivente... _ tornou a rir-se _ ...ambidestra! Poderosa!

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