quarta-feira, 23 de novembro de 2011

GLOBAL


Estou na Suíça também. Impressa. Em Genebra. Desde setembro.
A revista literária é Varal do Brasil. Pode ir conhecê-la, meu texto vai da página 89 à 91.
Ou leia aqui mesmo:


ESTADO GRAVE

Para a festa de Natal o precioso equipamento fotográfico de seu irmão Quincas foi posto a salvo em um depósito. O lugar se encheu de modelos. Moças e rapazes voluntariamente famintos, cujos esqueletos nada lhe diziam. Esqueletos falando estrangeiro, perdida aquela sua breve capacidade de comunicação. Apagado o relâmpago que riscara o seu céu e clareara um mundo com que interagir. Mundo com duração de parcos meses. Agora nenhum ser lhe dizia nada de relevante. Sua língua servia mais de lacre que de desenhadora de letra sonora. Pior que antes do relâmpago, quando o tempo havia sido de espera tranqüila, o aguardo de justamente um relâmpago para acender o mundo. As tempestades repetem-se a períodos, mas os relâmpagos são aleatórios. E que dizer da aleatoriedade do relâmpago simbólico?
Nessa noite apareceu Cota. Relâmpago tão ao fim do céu. Para lá do horizonte. A despeito do lamê vermelho no vestido de mangas bufantes. Decote até o umbigo. Personalidade vocal. Perto dela pouco se precisa falar. Apareço aqui vez em quando, Cota revelou, encontrei esse menino por acaso no desfile de uma grife. Ele não lhe disse? Já faz quase um ano, não é, Quincas? Com um olho empenhado no flerte com o rapaz, cobrou de Nana: E aí, caramujo, por que não me telefonou? Estou sabendo que papai lhe deu meu número de telefone.
Perdi o cartão, mentiu Nana, poupando a outra de sintomas maiores da indiferença, virose habitante de suas entranhas. E lembrou: Você poderia ter telefonado, se quisesse.
A gente nem sabe direito o que dizer a um caramujo que nem você, respondeu Cota. Sacou de dentro da bolsinha metalizada outro dos cartões de visita com logotipo, telefone e endereço da boutique da mãe, Hera. Copacabana. Representante de uma conhecida marca internacional de moda jovem. E acresceu a censura: Sempre a mesma Nana! Vivendo dentro dos livros, falando difícil, não é? Deveria tomar jeito. Tá na hora. Os heróis dos romances nunca vão virar gente. É bom começar a ter medo de ficar pra titia, sabe, de ficar no caritó. ‘Cê nem é tão feia. Um banho de loja, maninha, tem de ver que milagre pode fazer... Tô falando por mal não. A gente se conhece desde neném, né? Todas aquelas férias juntas. Só queria te fazer saber o que é namorar... ‘Cê ia morrer fazendo isso.
Certíssima nesse último ponto. A pessoa fica querendo morrer namorando. Que o mundo acabe em namoro. Os mísseis incinerem o alheio em redor, enquanto a gente se completa em par fundido. Na mais completa alienação. Enquanto durar. Porque o fim tarda mas não falha. E nem tardo foi. Seis meses. Relâmpago.
Mas seria lógico lembrar a pouca idade delas. E que além do mais andar arriando a calça por aí não garante o futuro. Em qualquer idade. Não se tratando de negócios. Ciente de quanta filosofia resultaria, sua resposta à verbiagem da outra foi um sorriso. Com a palidez do vírus. A colega bufou revirando os olhos de avelã, ajuntando para o alto da cabeça o cabelo de seda herdado de Hera. Depois beijou-lhe o rosto, despedindo-se com: Deus te ajude.
Nem sempre teve essa falta de efeito. Sua indulgência quanto ao maneirismo da colega costumava conter humor. Quase tão vivo quanto o lamê daquele vestido. Mesmo jamais tendo acrescentado algo significativo uma à outra.
E Nana a deixou ir sem perguntar: Como vai seu pai? Anda tristonho? Ou está saindo com alguma desquitada? Alguém que já cumpriu sua quota de erros. E sem ouvir possível convite para acompanhá-la à Cidade Maravilhosa. Mamãe ia adorar te ver, a outra diria, e papai também.
Para fazer a pergunta teria de nascer de novo. Para aceitar o convite idem.
Um poeta dos seus usava a expressão “desperdiçar minha poesia”. Havia de ser aquilo. Desperdiçar afetividade com alguém alheio à sua existência. Pérolas aos porcos.
Alguém pôs o disco do cantor baiano. A música a tomou feito líquido quente a um recipiente. Subindo. Pesando. Em iminente transbordar. O irmão, inconsciente de sua comoção, pôs as mãos em sua cintura, induzindo-a. Dois pra lá. Dois pra cá. E apontou: Foi má com sua amiguinha.
Sabe como aquela é, justificou-se com a garganta obstruída, vive num grau de alegria que ninguém consegue acompanhar.
Queria que você não parecesse a menina mais tristonha do Natal.
Impressão sua, mano.
Se ele houvesse continuado a ocupar-lhe o sentido com a conversa, teria sido possível a contenção emocional. Mas limitou-se a levá-la no ritmo. Cordas plangendo. Eco de um órgão. Bateria delicada. Estrofe melancólica:
“...não pense na separação
não despedace o coração
o verdadeiro amor é vão
estende-se infinito
imenso monolito
nossa arquitetura
quem poderá fazer
aquele amor morrer
nossa caminhadura
cama de tatame
pela vida afora...”
O irmão sentiu o ombro molhado. Espiou-a. Nana...! _ com um muxoxo de compaixão pegou seu rosto. Sem pergunta verbal. Questionava com a face, cheio de direito fraterno. Ela nada falou. Contumaz caramujo. Deteve o derramamento à custa de mandíbulas trincadas.
Entrou música de descabida alegria. Pararam diante um do outro. Ele sorriu resignado e brando. Borrou o make-up, avisou, tá a cara do Carlitos.
Sua deixa. Correu para o toalete. Lavou a cara. Esfregou papel toalha. Redesenhou a risca preta para dentro dos cílios inferiores. Método de disfarçar a tristeza de pálpebras caídas. Seu traço fisionômico natural. Sem necessidade de uma música a aumentar o espaço abaixo da íris. Fitou o espelho, pensando no socorro da tinta na cara. Dezessete anos. Apenas ela enxergando os calos de crescimento. Irrisórios calos, para o possuidor de quantidade muito maior. Insuficientes para encorajar um gato escaldado. E não era natural ele ter medo de água fria? Depois de toda a má interpretação de seus atos por parte da lei. A menos que o valor dela suplantasse o risco. Compensasse o possível sacrifício. Houvesse gratificação no poder de diluir concha. Ele era o único. No mundo dela. Mas sem a capacidade de perceber a importância disso. Tornou a verter lágrimas. Tornou a borrar a máscara. Noite perdida. Tornou a lavar e esfregar toalha de papel com fúria. Noite perdida!
Foi para o isolamento do quarto. Arrancou da parede o mapa falante. Ficava lançando-lhe em rosto o destino que não tomaria. Só nascendo de novo. No dia seguinte diria a Quincas sua opinião sobre a peça na parede.
Ele estranhou: Horrendo como? Mapas são tão interessantes.
Interessante na parede é uma paisagem, Quincas.
Ora, mapa é a síntese de todas as paisagens. Basta ter imaginação.
Ela teria teimado em que era um dos maiores absurdos já ouvidos, se o objeto da discussão não houvesse de fato sido sugestivo. Então se calou. Só tinham estéticas opostas. Pois bem.
Tudo oposto. Ele, por exemplo, jamais largava um osso suculento. Falou de convite feito por Cota para passarem o Reveillon em Copacabana. Assistirem à queima de fogos na praia.
Se pretendesse passar a ponte incerta, era hora. Teria objetivado no subconsciente ao aceitar essa viagem para São Paulo? Conscientemente porém, num nível similar ao do superego, a questão estava resolvida. Inútil apelar. Não vou ao Rio de Janeiro, avisou.
Mas, Nana, vamos, vai ser o maior barato!
Vá você. Nada impede. Sabemos que foi convidado para o beijo da virada.












Ele soltou um assovio. E zangou quando ela disse que voltaria para casa no dia seguinte. Ficou irredutível por causa do acordo de distraí-la, feito com o pai.
Ela contestou com raiva o ridículo de ter babá. Um inferno ser sempre tratada como criança.
Ele retrucou falando da liberdade cultivada nessa família. Se não sabia desfrutar, culpasse a si mesma. E ela se arrependeu de trocar os bandidos da história. Mudou de tom, passando a regatear com calma seu retorno à Bahia. Ao final abriu mão de uns dias. Iriam juntos ao aeroporto no último dia do ano, embarcando cada qual em um avião.
Ele teria os seus fogos na praia. 
E ela a companhia de Santiago, seu gato preto.

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