quarta-feira, 26 de outubro de 2011

RINO

Ele é bonito e simpático. O tipo do galã fraternal. A ferramenta tem a espessura de um lápis. Parece, vejo de relance, fecho os olhos tão logo sento no cadeirão, como quem tenta ignorar o estupro. "Pense noutra coisa, filha". A ponta causa um poco de dor nas narinas inchadas demais. Depois escorrega até as cordas vocais. Tusso, e... well, tente dizer vogais com um lápis enfiado na garganta.
O que vem a doer de verdade é o preço do tratamento. Dessensibilização. Faz por merecer o nome complicado. O computador sequer reconhecerá o termo, vai grifar em vermelho. Na viagem de ônibus, voltando para casa, chego a chorar. Talvez só reste me despedir do sonho de recuperar o olfato e o paladar. E torço para que não entre algum conhecido a sentar-se ao meu lado.
"Por que está chorando?"
"Otorrino. Alergia a mofo. Vacina a quatrocentos reais"
"É a vida. Pelo menos tem cura, né? Lembra da filha do Fulano de Tal? Ainda era quase adolescente. Reclamava de dor no quadril. O médico receitava diclofenaco em toda consulta. Depois se viu que era leucemia. Morreu em poucos meses".
Nessa hora uma pessoa conhecida sempre pode piorar a coisa. A intenção é boa. Daquelas que enchem de gente o inferno. Distraidamente. Já fiz o mesmo, para a amiga que reclamava da necessidade de duplicar a dose diária de antidepressivo: falei de nossa colega de infância que estava com suspeita de câncer na tiróide; alarme falso; felizmente, soubemos mais tarde.
Agora entendo a expressão da vítima, a depressiva.
Pois é, a vida _ desculpe o arroto. Se eu gosto da vida? E que tal a alternativa?
Um suspiro, e recosto-me na poltrona do coletivo, enxugando as lágrimas com o cuidado de não passar nos olhos as mãos de corrimão. Semana que vem tenho oftalmo, para atualizar os óculos. Faltam só três títulos para completar a leitura da obra de Hemingway. O Verão PerigosoO Adeus às Armas O Sol Também se Levanta. Ele descreve comidinhas e vinhos como ninguém.

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