segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ESTRÂNGULO


           Anoitece.
        Encontrará em casa o silêncio, o mini lago no jardim, o sapo que vez ou outra aparece. Fica sumido durante dias, semanas, e passa para uma visita ao lago. Já lhe deu sustos; numa iminência de tempestade, ao desconectar as tomadas dos eletrodomésticos, deu de cara com ele sentado sobre a televisão, olhinhos brilhantes fixos.
        Se for para casa, decerto vai se sentar à margem da água, perdendo-se em reminiscências noite adentro. Sua vida atualmente. 

O sapo. O príncipe.
O pêndulo.
O lago. Plácido.
O beijo. Vendaval.
O tempo. Surdo.
Mórbido...

           É do Tuta, o poema. Peso de chumbo na reticência.
        Decide evitar. Vai rodar por ali. Queimar gasolina. Onde é que se pode ir meditar à toa numa noite solitária numa cidade industrial? Avança pelas ruas comerciais. Chega ao shopping center. Comprará a bolsa que viu na loja indiana. Para presentear tia Jane. Não é sua tia de verdade, é mãe do Tuta. Foi quem a trouxe afetuosamente a essa cidade. Aniversaria. No dia do casamento do ex-marido. Boa e sóbria tia Jane. Deu-lhe apoio naquela adolescência, incentivou seu talento profissional. É sua sócia no atelier há anos. E também tentou arrazoar quanto à sua decisão de casar com Zé Carlos. "São muito diferentes, Lia. Dá problema. Vêm os filhos, que ficam sem saber o que é certo, pois os pais não entram num acordo. Olhe para a minha história. Veja o resultado no Tuta".
        Mencionar Tuta a fez decidir mais depressa. Precisava viver. Envolver-se com coisa concreta e só sua.
        No entanto, depois do "vendaval", tudo ficou malparado. Os filhos, achou por bem nem trazer ao mundo. Zé Carlos vivia para o trabalho, só lhe concedendo frestas de tempo. Até numa tarde entrar apressado, e fazer uma mala, informando: "Vou pro Pantanal. De mudança. Você resolve se vai depois, fique pensando no assunto. Tô indo na frente, pra aproveitar a carona no caminhão do Pedrão, que vai buscar uma carga. Passa aqui já, já". 
        Ele subitamente decidira haver chegado a hora de assentar a vida às margens do rio Paraguai, onde os pirilampos iluminam o campo à noite, os grilos fazem uma sinfonia, o peixe se pesca e se come na hora, a gente vizinha é singela e hospitaleira. Ela pensasse no assunto.
        Pensou. Dias, semanas. Considerava a poluição, o barulho, a violência urbana; e resolvia ir. Considerava o mato, os mosquitos, as cobras, a rudeza, o isolamento; e resolvia ficar. Considerava os pés frios de solidão, o travesseiro único; e iria. Considerava a mornidão, a mesmice; e ficaria. 
        Meses. Ano. Anos. Uma balança. Uma gangorra; ela é e não é.
        A essa altura pode já haver uma índia, cabocla, mameluca, cariboca, carijó, uma mestiça de lá preenchendo a vaga na cozinha e na cama dele.

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