quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

PAPEL DE BALA MILHAZES

Então fiquei sentada no banco do pátio, com meu cabelo crespão, encolhida na blusa velha de lã, a admirar os agasalhos marinho de frisos brancos laterais dos estudantes. A escola teve de me aceitar sem o uniforme por ora. Aquela criançada toda se conhecia decerto, de outra série, etc. Eu recém chegara de longe, três dias de ônibus. E o povo daqui ria da fala de gente do meu tipo.
Aí uma menina de cabelo cacheado mais ajeitado que o meu veio sentar no banco também e me ofereceu uma bala. Fiz não com a cabeça. Ela insistiu “Pega, é uma delícia”. E era. Altamente salivante. Morango. Doce e ácida na mesma medida. Chamada soft mas dura. Duradoura.
Alguém sugeriu de longe “Bia, quer o bambolê?”. A menina fez que não. E me perguntou:
_ Jogou fora o papel?
_ Papel?
_ Da bala.
_ Não.
_ Dá aí. Pra minha coleção.
_ Coleção de quê?
_ De papel de bala _ estirou o quadrado de celofane incolor sobre a perna. A luz do sol furtou cor com o azul da malha, fez reflexos e sombra com as letras de rótulo _ Olha, não acha bonito? Nunca jogo fora um papel de bala. Coleciono de todo tipo. Já tenho milhazes.
_ Quer dizer milhares...
Encolheu ombros despreocupados _ Pois é, o que eu disse: tenho milhazes. Muito mais de dois mil, sei lá, numa caixa de sapato abarrotada. Já vou começar a guardar noutra caixa.
_ E pra que serve? O que vai querer fazer com tanto papel de bala?
_ Não sei direito. Tenho pensado nisso... Uma mandala talvez.
_ O que é mandala?
Enroscou nossos braços enveredando para a fila de retorno à classe _ Vem. Vou desenhar pra você.


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

BIPOLAR

Ontem à tardinha uma luz se acendeu
Hoje amanheceu apagada
No mínimo lusca-fusca _ ela avalia
assistindo Bagdad Cafe 
para distrair a vontade desnecessária de comer
e os cinco jumentinhos aparam 
a grama da margem do lago

PROTESTO SURDO


sexta-feira, 7 de julho de 2017

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A INVENÇÃO DE UMA PERSPECTIVA



“Fica se chamando de ‘artista’. Nessa alegria idiota o tempo todo, sem motivo nenhum: você é feia! Nordestina, gorda, cabelo de bombril, tem pouco dente, não tem diploma, não tem filho, não tem dinheiro, e tem medo de avião”.


“E você tem a elegância do sobrenome estrangeiro. É magra. Cabelo de seda. Todos os dentes. Diplomas. Filhos bonitos. Passeia na Europa. Por que não é alegre?”