segunda-feira, 25 de junho de 2018


A menina e sua amiga e as outras meninas achavam que todas as meninas do mundo deveriam ter cabelos que escorressem como a água da chuva pelas orelhas e o pescoço e as costas. Mas a cabeça dessa menina a natureza cobriu com uma maçaroca muito crespa. Ela besuntava com óleo de amêndoa, desembaraçava com pente de dente largo e usava um pente de dente fino para violentar os fios contra o couro cabeludo. E no fim não podia se livrar do volume embolado ao redor da nuca.
Depois de uma dessas sofridas tentativas de alisar a cabeleira, a amiga estalou uma risada, dizendo: _ Que gozado!
_ O que foi? _ ela indagou com voz um pouco sumida.
_ O seu cabelo _ disse a amiga.
E ela naquela educação de resposta, ou deseducação de silêncio: _ Que é que tem?
_ Parece uma bacia.
Num dar de ombros, a menina resignou: 
_ Eu sei que o meu cabelo é feio.
E a outra: _ Eu não disse que é feio.
_ Não _ exasperou-se, ainda que com parca energia _ Disse que é lindo...
Para se defender do azedume dessa resposta, a amiga pôs-se a esboçar um esclarecimento: _ Eu não disse que é lindo nem que é feio, só disse que tá parecendo uma...
_ Bacia _ a menina cuspiu as palavras.
E a amiga, com sobrancelhas de autodefesa, ajuntadas para dentro, reclamou:
_ Nossa, como você é chata!